A Solidão Como Arma Democrática


Hoje deparamo-nos com fenómenos políticos que evidenciam caraterísticas inerentes a regimes totalitários. Grande parte das novas caras políticas, através de usos populistas, têm caminhado para discursos extremistas.

As nossas democracias ocidentais, liberais e nações de Estados de Direito Democrático, encontram no discurso público inimigos à sua forma e conteúdo. Trump no caso dos Estado Unidos claro no ataque à liberdade de expressão, Bolsonaro claro em muitas matérias e princípios, Ventura a clarificar-se cada vez mais e Obrán a afirmar que só acredita no conceito de democracia iliberal.

O xadrez político mudou e hoje discursos que muitas vezes tocam no limiar do ódio ou de outro tipo de agressões entre humanos, assentes numa dialética de nós (bons) contra eles (maus). Como podemos diminuir o risco de passar de uma sociedade aberta assente na paz e diálogo, para uma sociedade tribal, assente em nacionalismos e procura de superioridades?

Orwell e Huxley nas suas distopias passam uma mensagem fundamental, muitas vezes ignorada pelos apreciadores dos seus livros. Em 1984, essa imagem é clara quando a personagem principal tem na sua casa um ecrã que o acompanha a todo o tempo e molda a sua perspetiva de vida. Destarte, para os autores destas distopias e muitas outras que poderiam ser citadas, a solidão do indivíduo é um dos grandes redutos da liberdade. Sem solidão individual, a liberdade não será um valor possível na comunidade.

Assim, quando pensamos em combater fenómenos populistas e autoritários devemos partir do pressuposto que neste momento nas nossas sociedades ocidentais e democracias, os indivíduos já não têm espaço e muitas vezes direito à sua solidão.

Tal como foi previsto há muitos anos, em todos os momentos do nosso quotidiano estamos acompanhados por um aparelho que formata o nosso pensamento e processos de decisão. Pedimos um café e vemos o feed de notícias no facebook, estamos em casa a ver séries estudadas ao pormenor para corresponderem aos nossos anseios, no carro somos acompanhados por mecanismos de inteligência artificial cada vez mais desenvolvidos, em nenhum momento estamos verdadeiramente sós ou temos espaço para iniciar um diálogo interior sem uma influência externa.

Para além do fenómeno tecnológico, junta-se a velocidade e invasão de um modo moderno, assente no consumo desenfreado que não conhece limites. Ao contrário de muitos anos de evolução positiva, os horários de trabalho estendem-se ao longo do dia, com a agravante que hoje as fronteiras entre vida privada e laboral esbateram-se e estamos a todo o momento a ser invadidos com os problemas laborais na nossa esfera privada. Ora, os tribunais têm verificado esta realidade e encontramos muita jurisprudência a tentar regular esta matéria, configurando-se num novo princípio, o direito a desligar. Contudo, como todos as matérias, esta não será uma que encontrará a sua resolução por decreto.

Urge educar os jovens para a solidão, demonstrar a cada cidadão que para a construção de uma comunidade, o diálogo interno é fundamental, suscitar dúvidas, analisar problemas, interpretar notícias, perceber o discurso público no nosso íntimo.

É através da solidão que começamos a construir a liberdade individual e só depois avançamos para uma liberdade de comunidade, derrotando cada um de nós verdades fáceis e figuras sem conteúdo, que visam apenas dogmas que levarão a novas guerras.

Todos precisamos de passar mais tempo connosco, conhecendo os nossos limites e fragilidades, duvidando e questionando, para assim não aceitarmos verdades fáceis ou sem conteúdo.

Num mundo de bons contra maus, precisamos daqueles que pensam, refletem e encontram na pluralidade humana a beleza do mundo.




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