EUA 2020. Pela Estrada Fora #18: “Beijing Barry” na estrada, racismo na presidência e armas nos bolsos (até dos mais liberais)


Os norte-americanos estão com medo. Pelo menos a avaliar pelo número de compras de armas, que dispararam desde o início da pandemia de covid-19. De acordo com dados do FBI, de março a setembro venderam-se mais de 15 milhões de armas nos EUA, um aumento de 91% comparado com o mesmo período do ano anterior.

É habitual a compra de armas disparar em ano de eleições, como nos conta a American Conservative. Em 2016, por exemplo, as vendas dispararam, com muitos conservadores a correrem às lojas de armamento por temerem um aperto na regulação em caso de uma presidência liderada por Hillary Clinton. Mas agora não é apenas isso que move estes compradores: “Vemos que a pandemia de covid levou a que muitos departamentos policiais tivessem respostas mais limitadas em situações de emergência”, explicou à revista Alan Rice, porta-voz da associação Gun Owners of America (Portadores de Armas da América). “Os motins em muitas cidades também levaram pessoas que nunca tiveram uma arma na vida a comprar uma. As pessoas estão com medo, estão a comprar mais armas e mais munições para auto-defesa”.

O que difere da norma neste ciclo eleitoral é que não são apenas os mais conservadores que estão a comprar armas. Veja-se o caso das aulas de glock“>tiro dadas por Michael Cargill, dono de uma loja de armamento, que conversou com o Politico: “Normalmente, os clientes de Cargill são mais conservadores, disse ele, e as pessoas que agora estão nas suas aulas para terem licença de porte de arma são um misto de republicanos, democratas e libertários. E ultimamente, diz, a maioria dos estudantes são pessoas mais à esquerda no espectro político”.

“Se ligar para o 911 [número de emergência equivalente ao 112 nos EUA], não vou conseguir falar com um polícia”, é o pensamento de muitos destes alunos, segundo Cargill. “Vou ter de ser o meu próprio serviço de emergência. Vou ter de ter uma arma”. Os norte-americanos estão mesmo com medo.

A FRASE

“Conseguem imaginar o que seria se eu tivesse uma conta secreta num banco chinês quando estava a concorrer à reeleição? Teriam-me logo chamado Beijing Barry [Pequim Barry]”. Sim, hoje voltamos a citar Barack Obama num dos vários comícios que tem realizado ao longo dos últimos dias.

O antigo Presidente tem sido agressivo contra Donald Trump e aproveitado para picar onde Joe Biden, que tem de convencer todo o eleitorado, não pode. E, segundo uma peça do jornal “The New York Times” desta terça-feira, Obama está entusiasmado: “Meu, isto soube bem”, disse a um amigo ao telefone, depois de ter participado num comício drive-in, onde discursou num parque de estacionamento para eleitores que estavam todos resguardados nos seus carros.

NOS QUARTÉIS DE CAMPANHA…

Os olhos estão postos no Senado, onde os CEOs de redes sociais como o Facebook, o Twitter, a Google e a Alphabet (dona do Youtube) testemunharam perante o comité do Comércio.

Em causa estão as regras de regulação das plataformas online, que ao longo desta campanha têm tentado restringir a desinformação e, na opinião de alguns republicanos, limitado com isso a liberdade de expressão. Em causa está sobretudo o artigo do “New York Post” sobre Hunter Biden, filho de Joe Biden, e as suspeitas de que teria emails que revelavam práticas ilícitas envolvendo o pai — e que foi retirado do Twitter.

O tema mostra bem como Silicon Valley está dividida sobre como gerir conteúdos políticos na web. Com o Twitter a tomar a dianteira e a banir inclusivamente tweets do próprio Presidente por não serem 100% factuais, o Facebook também reforçou a guarda, o Spotify proibiu anúncios eleitorais na sua plataforma e até o Reddit, conhecido pelos fóruns de discurso sem filtros, começou a monitorizar discurso de ódio, como conta o Politico.

Mas as fronteiras entre aquilo que é desinformação, discurso de ódio ou simples expressão de ideias são pouco claras. No caso de algumas startups, o problema até já se coloca dentro das empresas, como é o caso da Expensify, que enviou um email aos seus clientes a apelar para votarem em Biden. “Nunca vi nada assim na minha carreira”, desabafa ao “New York Times” Bradley Tusk, consultor político e investidor de risco. “No clima político atual, já não há uma separação real entre nada, entre a política e o resto. Permeou tudo”, afirma.

Já Brent Bozell, fundador do grupo Media Research Center, avisa: “Se Trump ganhar e os republicanos mantiverem o controlo do Senado, estes grupos vão passar pelo inferno”. As tecnológicas parecem estar a apostar numa vitória de Biden. E a política norte-americana parece estar do avesso, com republicanos a pedirem regulação sobre empresas privadas e democratas a abdicarem delas.

…E PARA LÁ DE WASHINGTON D.C.

Neste “Pela Estrada Fora” olhamos para o Arizona, mais concretamente para o condado de Maricopa, que inclui a capital Phoenix. Com 4,5 milhões de residentes, é um condado essencial para quem quiser conquistar este estado, onde Donald Trump venceu em 2016. Mas, este ano, a situação é mais incerta, como explicou ao jornal “The Guardian” Jeff Flake, antigo senador republicano do estado que agora apoia Joe Biden: “Se o Presidente perder o Arizona, será em grande parte porque perdeu o condado de Maricopa”.

A história de Maricopa é semelhante à de muitos outros subúrbios. Os latinos que vivem na capital começam a adquirir mais poder de compra e a mudar-se para as zonas mais agradáveis longe do centro. Ao mesmo tempo, outros profissionais liberais e jovens famílias com tendências mais moderadas têm-se mudado para ali, atraídos pelo clima e a habitação mais barata.

“Eles não são aqueles republicanos do Arizona que acham que são cowboys ou polícias”, resumiu ao jornal o analista local Josh Ulibarri. “São republicanos que defendem políticas fiscais conservadoras, que por vezes são pró-educação pública e pró-aborto, e que estão a chegar a este estado controlado por republicanos extremistas e pensam: ‘este não é o meu Partido Republicano’”.

Como se não bastasse, o condado de Maricopa é o quinto mais afetado pela covid-19 em todo o país — e sabemos, com base nas sondagens, que esse é um assunto que beneficia mais Biden do que Trump. Mais uma vez, a 3 de novembro perceberemos se aqui houve mudança ou se o Presidente continua a conquistar os corações do Arizona.

NOSTALGIA AMERICANA

Ontem falámos neste “Pela Estrada Fora” da retórica da campanha Trump face aos afro-americanos. O Presidente garantiu ser “a pessoa menos racista” que estava na sala do último debate, depois de no anterior ter pedido ao grupo de extrema-direita Proud Boys para “recuarem e estarem a postos”.

Será Trump um Presidente racista? E as suas políticas? São perguntas que surgem muito frequentemente nas discussões sobre política norte-americana e a quem ninguém parece conseguir dar uma resposta definitiva.

O caso faz lembrar o do Presidente Woodrow Wilson. Recentemente, abriu-se até um debate sobre se a Universidade de Princenton deveria deixar de dar o nome do Presidente a uma das suas faculdades — com Trump a considerar a medida uma “estupidez incrível”. Tal acabou por acontecer, contudo, como confirmado pela Universidade este mês.

Seria Woodrow Wilson, conhecido como um ideólogo respeitado da política externa norte-americana, racista? Para muitos historiadores, não há dúvida que sim — ou que, pelo menos, Wilson ajudou a desculpabilizar alguns dos elementos mais racistas do sul dos EUA, para que o Partido Democrata não perdesse ali apoio (à altura, o partido era mais forte nos estados sulistas).

“Ele adotou uma perspetiva sulista consistentemente, ao considerar a escravatura em termos benignos e ao ver o Ku Klux Klan de forma semelhante: como defensores incompreendidos dos interesses dos brancos do sul. Wilson descreveu o grupo como ‘homens meio fora-da-lei, a quem é negado o voto, sem esperança de justiça nos tribunais, que adotam estes meios para fazer ouvir a sua vontade’”, argumentou no Times Literary Supplement o professor sul-africano Adekeye Adebajo. A ideia ganha força quando se relembra que com Wilson na presidência, o conhecido filme racista “Birth of Nation” foi até exibido na Casa Branca.

Também a norte-americana relembrou na New Republic que, enquanto Presidente, Wilson “concretizou a segregação no Departamento de Impressão [do Tesouro], no dos Correios, no Gabinete do Auditor para os Correios”, enumerou. “Isto envolvia não apenas separar as pessoas nos seus locais de trabalho, mas segregar até casas-de-banho e refeitórios”.

Contudo, há quem discorde desta avaliação. No “New York Times”, o historiador David Greenberg argumentou que esta ideia se baseia na avaliação dada por Wilson ao “Birth of a Nation”, quando disse que “é como escrever a História com um raio e o meu único arrependimento é que é tudo tão terrivelmente verdadeiro”. “Os dois biógrafos mais recentes de Wilson concluem que a frase é quase de certeza apócrifa. Aquilo que Wilson escreveu sobre o filme, em 1918, é que sempre sentiu que este era “uma produção infeliz” e que esperava “sinceramente que pudesse ser evitada, particularmente nas comunidades onde há muitas pessoas de cor”.

As questões sobre o alegado racismo de Wilson são recentes, já que em 1916, quando enfrentava a reeleição, poucos tinham interesse em debater o assunto — e a Lei dos Direitos Civis que poria um fim definitivo à segregação só seria aprovada décadas depois, com Lyndon Johnson. Wilson ganhou a maioria dos estados (incluindo todos os do sul) e a política de segregação que aplicou em alguns departamentos governamentais só seria desfeita mais tarde. A discussão sobre o seu legado, essa, acontece agora.

A SONDAGEM DO DIA

Hoje é dia de olhar para o Nevada. O estado foi conquistado por Hillary Clinton em 2016, mas por curta margem (apenas dois pontos percentuais), razão pela qual a campanha de Trump está a apostar em fazer comícios naquele estado, com esperança de virar ali os resultados.

As sondagens, porém, não indicam que tal deva acontecer. No início deste mês, o estudo da YouGov dava 52% a Biden e 46% a Trump. Dias depois, o estudo local do Las Vegas Review Journal apontava para uma margem mais apertada: 44%-42%. Mas o estudo da Siena, feito já depois do último debate, volta a dar ampla vantagem a Biden, com 49% das intenções de voto, contra 43%.

De acordo com o estudo da Siena, Biden lidera entre os latinos, os eleitores mais jovens e as mulheres. Mas Trump continua a ser o favorito de homens brancos sem estudos superiores. Veremos em breve quais destes grupos se mobilizam mais em torno do seu candidato naquele estado.




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