O Brasil ainda é muito melhor que Bolsonaro


Em 16 de abril, Luiz Henrique Mandetta saiu sob aplausos do Ministério da Saúde. Depois da posse do sucessor, pôs “Hey Joe” no volume máximo e se mandou de carro para casa. Naquele dia, o Brasil ultrapassou os 200 registros de morte pelo novo coronavírus. Seis meses depois, são mais de 150 mil, quadro que se aproxima do pior cenário traçado por Mandetta ao presidente Jair Bolsonaro no dia 28 de março. No relato dos 100 dias no comando do ministério durante a pandemia, Mandetta não deixa dúvida sobre a responsabilidade de Bolsonaro e de seus seguidores na tragédia que se abateu sobre o país. “Bolsonaro representa aqueles que só enxergam as sombras projetadas no interior da caverna”, escreve em Um paciente chamado Brasil. “Essa realidade projetada é o comportamento ignorante de quem acha que sabe tudo e nunca vai saber que só conhece os reflexos do mundo exterior projetados numa parede. Ter certezas não o torna um sábio.”

Mandetta acredita que, além da ignorância, Bolsonaro viveu, diante da catástrofe que se desenhava, um luto antecipado.

Passou pelas fases da negação (“só uma gripezinha”) e da raiva (culpando quem trazia as más notícias), para em seguida recorrer a milagres (à crença bizarra na cloroquina). Jamais chegou à fase que Mandetta chama de “reflexão”. Mandetta é generoso com Bolsonaro. Em nenhum momento cogita que pudesse simplesmente estar lidando com alguém perverso, apesar de ser conhecido o apoio de Bolsonaro à tortura, à barbárie do regime militar, à violência policial e a devoção também bizarra às armas. Entender por que 46% dos eleitores escolheram alguém com tal perfil logo no primeiro turno é tarefa para os historiadores do futuro. No presente, basta constatar as aglomerações Brasil afora, dos bares do Leblon à inauguração da loja da Havan em Belém, para entender que não se trata propriamente de um caso isolado.

No objetivo implícito de estabelecer, ainda no calor dos acontecimentos, o “caso contra Bolsonaro”, Mandetta deixa a desejar. Sua contribuição mais importante é lembrar, em meio à narrativa, que o Brasil não se resume aos devotos da cloroquina. A mesma pandemia que despertou as hordas de ignorantes também criou uma rede inesperada de solidariedade entre cientistas, jornalistas, políticos, empresários e, sobretudo, profissionais da saúde, médicos e enfermeiros que diuturnamente contribuem para evitar uma tragédia pior. Mandetta cita inúmeros exemplos. De empresas como a Vale (que doaram milhões de testes e equipamentos) a políticos que souberam entender a dimensão da tragédia. Do enfermeiro e epidemiologista Wanderson Oliveira (que seguia impávido ao trabalho no ministério depois de passar a noite em claro cuidando das convulsões da filha, vítima de paralisia cerebral) aos profissionais da imprensa (que não arredaram o pé para fornecer informações ágeis, fidedignas e necessárias, resistindo à campanha de desinformação). Ou o próprio pai dele, o médico Hélio Mandetta, que aconselhou o filho a ficar no cargo, porque “médico não abandona paciente”.

São essas as melhoras histórias do livro de Mandetta, aquelas que vale a pena contar. Guardadas as proporções, lembram o melhor momento do relato da filósofa Hannah Arendt sobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann, quando ela narra o silêncio que se abateu sobre o tribunal em Jerusalém, assim que um sobrevivente do Holocausto narrou o caso do sargento Anton Schmid, responsável por salvar dezenas de judeus do extermínio. “A lição dessas histórias é simples, ao alcance de qualquer um. Politicamente falando, é que, sob condições de terror, a maioria das pessoas vai se submeter, mas alguns não vão”, escreve Arendt. “Humanamente falando, nada mais é exigido, e nada mais pode ser pedido de modo razoável, para que este planeta continue um local adequado para a vida humana.” Tais histórias mostram que, assim como havia uma Alemanha muito melhor que o nazismo, ainda existe um Brasil muito melhor que Bolsonaro.

UM PACIENTE CHAMADO BRASIL: OS BASTIDORES DA LUTA CONTRA O CORONAVÍRUS
Luiz Henrique Mandetta, Objetiva
2020 | 228 páginas | R$ 49,90

Helio Gurovitz é jornalista, editor de Opinião do jornal O GLOBO

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