Ultradireita armada ataca autor de Outras Palavras


Almir Felitte investiga o estímulo do bolsonarismo à formação de milícias políticas dispostas a impor, pela violência, sua vontade ao país. Ao atacá-lo, um desses grupos revela como suas suspeitas têm fundamento

Por Antonio
Martins

Advogado, ativista
político e colaborador de Outras Palavras,
Almir
Felitte
foi alvo, nesta sexta-feira, de um ataque direto, por
parte da Associação CAC
Brasil. A entidade, cuja sigla refere-se a Caçadores, Atiradores e
Colecionadores (de armas), tem como logomarca
uma caveira, trespassada por dois fuzis. Em nota, redigida em mau
português, expressa
“repúdio” a Almir, qualifica-o como “um soldadinho da
oposição” e promete ser “a força de reação que irá proteger
o país e apoiar o presidente”, caso prevaleçam no Brasil projetos
de esquerda.

Ao
contrário do que pretendia a nota, as palavras da CAC confirmam
a gravidade de dois alertas feitos por nosso colaborador, a partir de
suas investigações : a) Está se formando um novo tipo de milícia
no Brasil, explicitamente político. Grupos de cidadãos que
expressam ideias de ultradireita armam-se e se preparam para impor,
por meios violentos, suas visões de mundo e de país; b) O governo
Bolsonaro estimula abertamente essa
prática. Para tanto, ataca e revoga inclusive resoluções do
Exército Brasileiro. Ao fazê-lo incorre tanto em crimes de
responsabilidade quanto comuns, e amplia o leque de motivos que
podem levar à
cassação de seu mandato e sua subsequente prisão.

As
investigações de Felitte ajudam a compreender o sentido das
declarações de Bolsonaro, na reunião ministerial bizarra de 22 de
abril. Na ocasião, o presidente sugeriu que “a população armada”
deveria impedir as decisões de seus adversários políticos – por
exemplo, a quarentena, única medida efetiva, até o momento, de
proteção contra a covid-19. Mas a quem ele estaria se referindo?

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Felitte
mostra que a fala tem
endereço. A Associação CAC Brasil, que também se autointitula
Associação Nacional de
Armas, propõe-se abertamente – mostram os textos publicados pelo
autor em Outras Palavras (1
2)
a agir como as
milícias políticas norte-americanas. A intenção destas: impor as
ideias de ultradireita pela força das armas, é explícita.

Porém,
há um terrível agravante, no Brasil. Nos EUA, nenhum governante –
nem mesmo Donald Tramp – jamais expressou apoio a estes grupos
fanatizados. Eles tiram proveito da legislação, permissiva ao porte
de armas, em vigor em muitos estados (são
as mesmas leis que permitiram, em outro contexto, que os Panteras
Negras se armassem…) Porém,
sem sustentação oficial, os
grupos norte-americanos não
são capazes de provocar grande dano.

Aqui,
o apoio – ilegal e inconstitucional
– do Palácio do Planalto muda tudo. Foi para favorecer as milícias
de ultradireita, mosta também Felitte, que Bolsonaro revogou, há
cerca de dois meses, disposições oficiais do Exército (as
Portarias COLOG Nº 46, 60 e 61) que estabeleciam o controle sobre a
circulação de armas.

A
decisão, que abriu brechas para o armamento de milícias políticas
privadas, veio com com um recado direto. Em mensagem no Twitter, e em
tom de cumplicidade, o presidente comunicou “aos atiradores e
colecionadores” sua decisão. Felizmente, a Procuradora Federal
Raquel Branquinho compreendeu a manobra e abriu
duas investigações
sobre os atos do ex-capitão.

Felitte
acompanha, em sua
coluna
em Outras Palavras, todos
estes movimentos. Por isso, incomoda tanto as novas milícias. As
ameaças destas não o calarão – nem ao site. A ele, nossa
solidaridade, apoio e companheirismo.

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